A GRANDE COMISSÃO E A GRANDE OMISSÃO
- Título: A Grande Comissão: Nosso Chamado, Nossa Missão
- Texto Base: Mateus 28.18-20; Marcos 16.15-18; Lucas
24.46-49; João 20.21-23
Introdução
Jesus,
antes de subir aos céus, deixou-nos uma Missão clara, urgente e cheia de
promessas. A Grande Comissão é o mandato central para os cristãos. O "Ide" de
Jesus está registrado em Mateus, Marcos, Lucas e João.
1. Evangelho de Mateus (28.18-20) – O
foco no discipulado e na autoridade
"Toda
a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou
convosco todos os dias, até a consumação dos séculos."
Elementos-chave:
- Base da missão: A
autoridade universal de Jesus.
- Comando central:
"Fazei discípulos" (não apenas convertidos, mas seguidores comprometidos).
- Meios: Batismo
(inclusão na comunidade trinitária) e ensino da obediência a Cristo.
- Promessa:
Presença constante de Jesus até o fim do mundo.
2. Evangelho de Marcos (16.15-18) – O
foco na pregação e nos sinais
"Ide
por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado
será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão os que
crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em
serpentes; e se beberem algo mortífero, não lhes fará mal; imporão as mãos
sobre os enfermos, e eles serão curados."
Elementos-chave:
- Comando central:
"Pregai o evangelho" (ênfase na proclamação universal).
- Resultado da fé:
Salvação ou condenação (urgência escatológica).
- Sinais de
confirmação: Milagres acompanham a pregação (contexto de perseguição e expansão
inicial).
3. Evangelho de Lucas (24.46-49) – O
foco na promessa do Pai e na capacitação
"Assim
está escrito que o Cristo padeceria e ao terceiro dia ressuscitaria dos mortos;
e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas
as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. E eis
que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de
Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder."
Elementos-chave:
- Conteúdo da
pregação: Sofrimento, ressurreição, arrependimento e perdão dos pecados.
- Abordagem
geográfica: Começar por Jerusalém (princípio da extensão gradual).
- Capacitação:
Aguardar o Espírito Santo ("a promessa do Pai" – cumprida em Atos 2).
- Papel do
discípulo: "Testemunhas" (ênfase na experiência pessoal com o Cristo
ressurreto).
4. Evangelho de João 20.21-23 – O foco
na missão continuada de Jesus e no poder de perdoar pecados
"Disse-lhes,
pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também
vos envio. E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito
Santo. Se aos outros perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; se lhos
retiverdes, ser-lhes-ão retidos."
Elementos-chave:
- Fundamento da
missão: "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio" – a missão dos
discípulos é uma extensão da missão do Filho pelo Pai (encarnação, serviço,
cruz e ressurreição).
- Capacitação:
Jesus sopra sobre eles e diz: "Recebei o Espírito Santo" – ato profético que
ecoa Gênesis 2.7 (Deus soprando vida em Adão) e antecipa Pentecostes (Atos 2).
Aqui, o Espírito é dado para a missão específica do perdão.
- Poder concedido:
Autoridade para perdoar ou reter pecados – não como absolvição sacerdotal
automática, mas como proclamação autorizada do evangelho: onde há
arrependimento e fé, anuncia-se perdão; onde há rejeição, anuncia-se retenção
(cf. Mateus 16.19; 18.18).
João
enfatiza a identidade missionária do discípulo: ele é enviado como Jesus foi
enviado.
A
missão é uma extensão da própria missão do Filho no mundo.
O
Espírito Santo é dado para que o discípulo, na dependência e autoridade de Cristo,
anuncie a reconciliação (perdão) ou a retenção (juízo) baseado na resposta ao
evangelho.
De sorte que somos embaixadores por Cristo,
como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos
reconcilieis com Deus. 2 Coríntios 5:20
5. Síntese final: A Grande Comissão
nos quatro Evangelhos
A missão é trinitária – procede do Pai, é fundada na autoridade do
Filho, e será executada no poder do Espírito.
- A missão não
nasce do entusiasmo humano, mas da vitória de Cristo ressurreto.
- O discípulo não é
um voluntário, mas um enviado na mesma linha do Filho encarnado.
O conteúdo da missão: Evangelho,
testemunho, perdão e discipulado
- O alcance da
missão: Universal, mas com ordem estratégica: Lucas: "Todas as nações, começando por Jerusalém". A missão avança
a todas as culturas e etnias.
A duração da missão: Até a consumação dos séculos. A Grande
Comissão não é uma tarefa temporária, mas o mandato da igreja até o retorno de
Cristo, executado na certeza da presença constante do Senhor.
A segurança da missão: A Promessa — Eis que estou convosco todos os
dias, até a consumação dos séculos. Amém."
II - PARTE
1. Dinamismo vs. Acomodação
O
engajamento apostólico na Grande Comissão foi notável. A partir do dia de
Pentecoste os apóstolos começaram a iluminar
o mundo com o Evangelho de Jesus Cristo.
Lucas 24:49
mostra Jesus mandando os apóstolos esperarem até que, do alto, fossem revestidos de poder. Eles precisavam ser transformados antes de
transformar o mundo.
O impacto profundo do Evangelho no coração dos
ouvintes só se materializou porque os apóstolos ficaram juntos e aguardaram o
revestimento de poder.
A mudança de paradigma
Em João 20:21, Jesus diz: "Assim como o Pai
me enviou, eu também vos envio". Isso mudou a identidade deles. Eles
deixaram de ser "seguidores" (discípulos) para se tornarem
"enviados" (apóstolos). O silêncio da espera é quebrado em Pentecoste
pelo som de um vento impetuoso e por idiomas que transcendiam barreiras
culturais. O dinamismo de Atos é a prova de que a Grande Comissão não é um
programa evangelístico, mas o fluxo natural do Espírito Santo em vidas
esvaziadas de si e cheias da presença de Deus.
2. A Anatomia dos
"Hiatos de Acomodação" na História
A trajetória da Grande Comissão na história da
igreja não seguiu o padrão apostólico. A linha do tempo da Igreja é um
movimento ondulatório: picos missionários seguidos de vales de acomodação. Por
que isso acontece?
- O perigo da institucionalização: Toda vez que um movimento missionário obtém "sucesso",
ele tende a criar estruturas (templos, seminários, doutrinas
sistemáticas). O que nasce como movimento do Espírito rapidamente
vira uma instituição humana. A instituição, por sua natureza, busca
a autoperpetuação e a sobrevivência, desviando a energia que antes ia para
as nações.
- A Acomodação do Evangelho: Nos
vales históricos (como a Idade Média em grande parte de sua extensão), a
Igreja achou que sua missão era "cristianizar" a sociedade já
existente ao redor dela, em vez de pregar o arrependimento e fazer
discípulos. Acomodou-se ao status quo. Os grandes despertares (Reforma,
Morávios, Pietistas, Avivamentos modernos) foram, na verdade, choques de
realidade para romper essa acomodação.
3. O Paradoxo
Atual: Muito Barulho, Pouco Envio
Hoje o
ruído institucional substituiu a força
missionária transformadora.
"Hoje temos
muito barulho e pouco envolvimento na Grande Comissão". Como podemos analisar esse fenômeno contemporâneo?
- Confusão entre Marketing e Missão: A igreja moderna aprendeu com o mundo corporativo que é preciso
"gerar engajamento". O resultado é um barulho ensurdecedor de
redes sociais, cultos superproduzidos, campanhas de arrecadação visuais e
polêmicas para manter a relevância. Mas engajamento digital não é
discipulado. O barulho de hoje visa as emoções do homem (espetáculo,
entretenimento), enquanto a Grande Comissão visa o coração (arrependimento
e rendição).
- O Eclesiocentrismo (A igreja voltada para si mesma): A maior parte do orçamento, energia e tempo das igrejas locais
hoje é gasta para manter quem já está dentro. Criamos um cristianismo de
consumo, onde as pessoas avaliam a igreja pelo que recebem (louvor,
palestra motivacional, networking), e não pelo que sacrificam ou entregam
aos que estão de fora.
- A "Grande Omissão": O renomado teólogo americano, Dallas Albert Willard, cunhou esse
termo ao notar que, para a igreja atual, a Grande Comissão foi reduzida a
"fazer convertidos" (e ainda assim, muitas vezes, decisões
superficiais). Jesus não disse "façam convertidos de todas as
nações", mas "façam discípulos". Fazer discípulos é
demorado, requer relação, vulnerabilidade, esforço, doação e incômodo —
coisas que o nosso cristianismo instantâneo, superficial e barulhento não
tolera.
4. O Desamor e a
Grande Omissão
A igreja contemporânea, apesar de recursos tecnológicos sem precedentes,
enfrenta um obstáculo central que a impede de cumprir plenamente a Grande
Comissão: uma crise de prioridade do coração. A abundância de ferramentas e a
presença global podem, paradoxalmente, gerar uma ilusão de progresso,
mascarando uma deficiência mais profunda.
O que
verdadeiramente falta não é capacidade operacional, mas paixão transformadora. O desamor pelas almas perdidas é a raiz do
problema. Esse esfriamento gera uma acomodação confortável, onde a missão deixa
de ser um impulso urgente e se torna um item programático entre outros. A
atividade substitui a intencionalidade, e o conforto da comunidade substitui o
custo do discipulado. Sem um reavivamento do primeiro amor – a compaixão que
moveu o próprio Cristo e, posteriormente, os apóstolos –, os melhores recursos
permanecem subutilizados, e o mandamento central se dilui em meio a agendas
lotadas. A verdadeira engrenagem da missão sempre foi e sempre será movida por
amor, um combustível que não pode ser simulado por nenhuma tecnologia.
Conclusão: Como
voltar ao Dinamismo Apostólico?
O que separa a acomodação e o barulho moderno do
"dinamismo espiritual apostólico" é a fonte do poder. A acomodação é
sinal de esvaziamento do Espírito e o barulho atual é fruto da tecnologia e do ego, resultados da vaidade ministerial. O
dinamismo de Atos era gerado pelo Espírito Santo e por uma convicção profunda
de que Jesus era o Senhor de tudo (Mateus 28:18).
Para reverter esse quadro, a Igreja de hoje precisa
de um jejum de marketing e um banquete de oração, na comunhão com o Espírito Santo.
Precisamos resgatar o entendimento de que o cristão não é
um espectador de um culto, mas um embaixador do Reino de Deus (2 Coríntios 5:20).
Enquanto a igreja gastar sua energia tentando ser
relevante no palco, continuará sendo irrelevante nas trincheiras do mundo real,
onde a Grande Comissão exige o nosso IDE.
A história prova que quando a igreja cala a sua
própria voz para ouvir a voz de Cristo, ela se levanta e sacode o mundo. Quando
a igreja substitui a voz de Cristo pela sua própria buzina, ela se torna apenas
mais um ruído no meio da multidão.
Que o Espírito Santo — que foi o grande motor de amor e de coragem daqueles primeiros apóstolos — ilumine a sua mente e o seu coração
durante a leitura, estudo e meditação desta reflexão. Quando temos fome da verdade, o Santo Espírito sempre tem
coisas profundas para nos mostrar.
Pense nisso e que Deus nos abençoe rica e
abundantemente. Amém!